Buscar
  • Laudio Nogues

AUTONOMIA EMOCIONAL

Atualizado: Mai 20


INTRODUÇÃO

Conseguir atingir autonomia emocional plena é tão necessário quanto utópico. Apesar dessa – um tanto contraditória – afirmativa, vale muito a pena estar consciente do quanto será essencial buscá-la. Na verdade, não importa muito se vamos ou não a atingir em sua plenitude; o importante mesmo será a jornada consistente em sua direção. Quanto mais próximo, maior o retorno.

O esforço é individual e sem possibilidade de terceirização, visto que cada um de nós tem pontos de partida bem diferenciados nessa jornada. Além disso, cada pessoa tem uma constituição psicológica única e um ambiente estrutural peculiar à sua trajetória. Todas essas variáveis restringem a possibilidade de uma fórmula aplicável a todos, por isso é necessário fazer ajustes individualizados na criação e efetiva execução de um plano de ação.

Mas o que significa, de fato, ser autônomo emocionalmente? A parte do nosso cérebro que dá conta das nossas emoções é independente e muito ágil em sua atuação. Essa característica resulta em porções desproporcionais entre impulsividade e racionalidade, sendo a resposta impulsiva a de maior peso. A autonomia emocional nos garante um reequilíbrio entre razão e emoção, fornecendo condições mais favoráveis para uma resposta mais habilidosa aos estímulos mundanos.

Quanto mais próximo desse estado mental, mais livres a pessoa se torna para dizer e fazer aquilo que decidir conscientemente – e não impulsivamente, optar por si só a respeito daquilo que realmente precisa, conquistar um maior grau de inteligência social, e ainda se sentir confortável com esse processo de independência pessoal.


Os principais componentes da autonomia emocional são:

· Autoestima;

· Assertividade;

· Resiliência.

Essas três qualidades são essenciais na construção de uma condição de liberdade emocional. No entanto, elas são frontal e diariamente ameaçadas por dois fatores: as situações externas (gatilhos) e os sabotadores internos.


DESAFIOS

Situações externas (gatilhos)

São estímulos que chegam e são percebidos por meio dos cinco sentidos corporais (visão, audição, olfato, paladar e tato). Diariamente, nos deparamos com situações que acionam um gatilho, seja ele positivo ou negativo, desde o momento que acordamos até a hora em que dormimos. Algumas são corriqueiras, como: acordar atrasado, escutar o som de passarinhos entrando pela janela, ficar travado no trânsito, receber um elogio ou uma crítica do chefe ou de um colega de trabalho, sentir o cheirinho do café fresco saindo da cafeteira etc. Outras são mais pontuais e de maior relevância: a notícia de uma doença, o nascimento de um(a) filho(a), uma promoção, e tantas outras possibilidades. Todos esses eventos desencadeiam, em maior ou menor proporção, reações internas, e alguns deles podem funcionar como sustentação para nossos bloqueios mentais.

Aqui, vale a pena trazer uma breve definição de bloqueios mentais. Eles são amarras internas que nos levam na direção oposta da liberdade habilidosa de escolha. A maioria delas é cultivada ao longo da vida por meio de experiências vivenciadas e brota do nosso inconsciente reduzindo, portanto, a possibilidade de uma melhor avaliação e decisão nos momentos cruciais.


Sabotadores internos

Desde nossa infância, até a fase adulta, desenvolvemos mecanismos de proteção para lidar com as ameaças de um mundo em constante transformação e que encaramos dia a dia. Novas situações, algumas estressantes, vão moldando dispositivos de defesa para nos ajudar no enfrentamento de tudo isso. Me refiro a situações que, mais tarde, se transformarão em eventos imperceptíveis da vida comum. Pois bem, é exatamente aí que aquele acervo de dispositivos aliados muda de lado e passa a nos sabotar. O pior de tudo é que, por estarmos tão acostumados a eles, não percebemos sua influência negativa e continuamos reagindo como sempre fizemos, guiados pela sabotagem dos antigos defensores.

Vejamos o exemplo de João Pedro. Passou toda a sua infância e adolescência, a maioria do tempo sem sucesso, lutando pelo reconhecimento de seus pais, por um momento de valorização do seu esforço. Se habituou a agir buscando agradar pessoas para se sentir prestigiado por meio de uma atitude sempre prestativa. Não que ser prestativo seja ruim, mas o problema está na motivação e na dose. Ser prestativo excessivamente por carência afetiva é, de fato, uma autossabotagem. No entanto, João Pedro faz isso de maneira natural, como um cacoete, e até se sente importante por isso. Percebam como sabotadores são traiçoeiros: eles se sustentam em mentiras que contamos para nós mesmos. No caso de João Pedro, ele acredita que “o mundo precisa de pessoas que se doam mais às outras como eu”, reforçando, assim, seu sabotador.

Quebrar a lógica da autossabotagem é essencial no caminho de uma vida cada vez mais autônoma emocionalmente. No exemplo de João Pedro, é fácil perceber que sua resposta ao mundo está incondicionalmente alienada de suas experiências, vivenciadas durante a sua juventude.

Bom, se estamos expostos às ameaças dos acontecimentos da vida (gatilhos), despertando nossa coleção de sabotadores internos, o que podemos fazer para seguir em direção à liberdade da autonomia emocional?


Faça aqui os testes de "Quociente de Positividade e Sabotadores".


RECONHECENDO O PROBLEMA E SEUS EFEITOS IMEDIATOS

Como todo processo de diagnóstico e cura, o primeiro passo a ser dado é reconhecer a possibilidade de autossabotagem. No fundo, todos sabemos ou temos uma boa ideia a respeito das situações em que agimos inadequadamente. Podemos continuar negando a nossa responsabilidade, culpando as circunstâncias ou os outros, mas, intimamente, sabemos que tem algo que precisa mudar dentro de nós. Portanto, o momento requer uma boa dose de humildade e coragem para seguir em frente com a exploração dos problemas.

As pesquisas do Prof. Dr. Shirzad Chamine, que resultaram no livro Inteligência Positiva, foram mapeados 10 tipos de sabotadores, sendo o principal de todos o “Crítico”. Vivemos criticando nós mesmos, os outros ou as circunstâncias. O Crítico conta com nove outros sabotadores coadjuvantes, os quais possuem caraterísticas próprias bem definidas.

Precisamos também ter consciência sobre o nosso padrão de comportamento para sermos capazes de identificar as situações em que os pensamentos sabotadores invadem nossa mente.

Finalmente, dentro do processo de reconhecimento, necessitamos identificar a resposta corporal que essas situações estressoras provocam. Me refiro a sensações físicas, como queimação gástrica, sudorese, enrijecimento muscular, inquietação etc.

O reconhecimento habilidoso de como o processo acontece é uma condição poderosa para conseguirmos lidar e responder mais produtivamente aos estímulos. Passamos, então, a fazer escolhas conscientes, e não aleatórias e habituais.

Ao desenvolver essa habilidade, estamos mais preparados para identificar as características de nossos sabotadores, os momentos peculiares em que eles aparecem e os efeitos bioquímicos que provocam no nosso corpo. Diante desse acervo de autoconhecimento, resta apenas aplicarmos os antídotos adequados para minimizar os efeitos nocivos da autossabotagem. Sim, digo minimizar porque nunca seremos capazes de eliminar por completo nossos sabotadores. Eles têm raízes muito poderosas e indestrutíveis; no entanto, técnicas eficazes apontadas pelo Dr. Chamine e pelos mestres da meditação mindfulness (ou atenção plena) estão à disposição para reduzir ao máximo seus efeitos.

DESCONSTRUÇÃO E PAUSA

Como já dito, a mística do sabotador interno é poderosa: ela brota do nada, emerge das profundezas de onde nem sequer conseguimos ter consciência. É algo que ficou em um passado remoto e nebuloso, mas que mantém pensamentos associados e sensações físicas muito presentes. Precisamos, dessa forma, ter contato com essa situação e desmistificar o processo.

A primeira recomendação é a de nomear de forma pejorativa o pensamento sabotador, para tratá-lo na terceira pessoa e desvinculá-lo da sua identidade. “Gostosão”, “Mano”, “Safado” são alguns dos apelidos mencionáveis que me recordo e foram usados por alguns dos meus clientes. O time é importantíssimo, ou seja, no momento em que a situação ocorre, em questão de segundos surgem pensamentos e manifestações físicas. Nesse instante, você está preparado para agir rápido e tratá-lo mentalmente na terceira pessoa pela alcunha escolhida: “pronto, lá vem o Gostosão me perturbar”. Vamos dar o próximo passo.

Precisamos de uma pausa de alguns segundos. Desvirtuamos nossa atenção da rota de colisão para algo totalmente alternativo. Usamos, então, três respirações longas enquanto focamos na sensação de um dos cinco sentidos corporais. Podemos perceber a textura de um objeto qualquer na ponta dos dedos, sentir o calor do contato do nosso corpo com o assento em que estamos, ouvir algum som ambiente, e por aí vai. Não será preciso se isolar ou mesmo fechar os olhos; o ideal é que tudo aconteça de forma imperceptível às outras pessoas. No intervalo de três longas respirações, executamos essa manobra com os sentidos corporais, possibilitando, assim, circunstâncias favoráveis para o desvio da rota usual da inabilidade em busca de uma resposta consciente e produtiva.


O REFORÇO (MINDFULNESS // ATENÇÃO PLENA)

Define-se por mindfulness, ou atenção plena, a capacidade de estar no momento presente intencionalmente e sem julgamento. A ciência vem comprovando, de forma empírica, que o gerenciamento da atenção (foco) favorece diretamente a aptidão para o controle das emoções. O treinamento atencional que o mindfulness propõe é um robusto reforço no desenvolvimento do equilíbrio entre racionalidade e emoção, nos direcionando, dessa forma, rumo à autonomia emocional.

São exercícios diários executados em práticas meditativas que buscam reforçar sua capacidade atencional, seu reconhecimento de padrões mentais e sua habilidade de se relacionar de maneira aberta e acolhedora com situações difíceis, ao invés de tentar inutilmente rechaçá-las do interior da mente.

Para quem deseja uma aproximação mais qualificada, o Mindfulness Based Stress Reduction (MBSR) é um protocolo com vasta comprovação de sucesso e aplicação mundo a fora, especialmente em ambientes empresariais. O programa é desenvolvido em oito semanas de treinamento, com o objetivo de capacitar profissionais de qualquer nível ou área de especialidade em uma prática regular de atenção plena. Os exercícios podem ser formais – quando dedicamos um tempo específico para uma atividade preestabelecida –, ou informais – quando executamos atividades corriqueiras, como escovar os dentes ou caminhar, com a consciência plena no momento presente.


Praticar para mudar

A jornada pode não ser fácil, tendo em vista a necessidade da persistência e confiança no processo. No entanto, o estímulo acontece com os primeiros efeitos positivos. A elevação do nível de autonomia emocional traz, acima de tudo, equilíbrio e paz interior. Aquela sensação de não ter feito aquilo que deveria ou de se arrepender após uma ação tomada vai, aos poucos, cedendo espaço para um estado de maior autoconfiança, elevando, então, a autoestima, a assertividade e a resiliência.

A tranquilidade faz com que as palavras e as ações tenham a justa medida.


Frase de fechamento:

“Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro, desperta.”

(Carl Gustav Jung, psiquiatra suíço)



Autor: Laudio Nogues Filho


Referências bibliográficas


Livros:

Atenção Plena, de Mark Williams e Danny Penman (Sextante, 2015).

Inteligência Positiva, de Shirzad Chamine (Fontanar, 2013).

The Mindful Workplace, de Michael Chaskalson (Wiley-Blackwell, 2011).


Site:

A mente é maravilhosa. Disponível em: https://amenteemaravilhosa.com.br/.

147 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo