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  • Laudio Nogues

Empatia às Cegas

Atualizado: 10 de Nov de 2019

Durante o curso de imersão em Design Thinking que participei na Escola de Design Thinking da Echos vivi uma experiência impagável proposta pelo professor. Confesso que a minha primeira reação foi de constrangimento, mas logo cedi a tentação de obter todo o benefício que a dinâmica poderia me proporcionar.


Muito se fala a respeito de um mundo onde as pessoas sejam mais empáticas, pacientes e dispostas a efetivamente doarem-se por inteiro quando em contato com outro ser humano. Ter a capacidade de enxergar, sentir e contribuir na direção de aliviar a dor do outro. Muitos tentam encontrar uma definição do que vem a ser empatia. Eu mesmo já arrisquei definições que hoje entendo serem muito pouco para expressar, de uma vez por todas, este complexo sentimento.


Pois bem, o exercício foi o seguinte: metade dos alunos iria vendar completamente os olhos, enquanto a outra metade formaria dupla e permaneceria sem venda. Deveríamos subir a rua em frente à escola e caminhar até o fim (uma distância de 150 a 200m) em direção à Av. Santo Amaro, onde na esquina havia um supermercado. Entrar no estabelecimento e comprar algo que estivéssemos precisando na nossa casa - tudo isso de olhos vendados e somente amparados pelo colega que estava enxergando para evitar acidentes. O companheiro de dupla não poderia ajudar a encontrar o produto, falar a marca ou facilitar a ação na hora do pagamento - foi realmente como enfrentar as adversidades de um deficiente visual em uma situação cotidiana.


Após a simulação, que terminou ao final do processo de pagamento e com a venda removida, tive um impacto muito significativo ao visualizar as luzes, as cores e a feição das pessoas ao redor nos caminhos por onde passei. Foi muito estranho. Aquele supermercado era completamente desconhecido para mim, nunca tinha estado lá.


Enquanto vendado, tudo era como um buraco negro, triste, tenso e sem vida. As sensações de audição e olfato tornaram-se mais aguçadas e tive a constatação de que vivemos em um mundo dos perfeitos onde deficiências não são bem-vindas.


Gostaria, porém, de trazer essa experiência para situações muito mais frequentes em

nossas vidas.


Na maior parte do tempo, não lidamos com pessoas classificadas como deficientes (a não ser que você seja um daqueles de alma iluminada que faz um trabalho específico). Estamos, na maioria das vezes, em contato com indivíduos “perfeitos” - o grifo proposital deve-se ao utópico aspecto da perfeição.


O conceito de perfeição depende de um padrão - sempre será necessário um gabarito para possibilitar o entendimento do que vem a ser perfeito. E é exatamente nessa hora que chegamos à conclusão que, em diferentes graus, todos somos deficientes. A minha ideia de perfeição é única e caminha, invariavelmente, junto com o meu poder de julgamento. Estes dois elementos são como gasolina e centelha na queima do sentimento empático.


O meu padrão soberano me conduz ao julgamento rápido, que me leva a dispersão e ao exame superficial e simplista da questão, transferindo assim, a razão central do problema para a “deficiência” pessoal do interlocutor. É como ouvir a lamentação de alguém sobre dificuldades na sua vida profissional e responder apressadamente “troque de emprego”, “chute o balde”, ou alguma outra sentença imediatista para eliminar o problema do ouvinte.


A escuta empática plena requer muito treinamento e obstinação da parte de quem quer alcançá-la. Nossa conduta está viciada no imediatismo - trata-se de um exercício consciente diário até atingirmos estágios mais avançados.


Para tanto, precisamos nos conhecer muito melhor, saber quais os sabotadores que nos assolam e de que forma atuam. Você há de me perguntar: sim, mas qual o benefício disso? Minha resposta: um mundo muito mais iluminado, colorido e fascinante ao seu redor.

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