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  • Laudio Nogues

Finanças pessoais com consciência


INTRODUÇÃO


De maneira geral, existem três caminhos motivadores para se manter uma poupança: aquisição de algo (bem ou serviço); manutenção de uma reserva para emergências; e aposentadoria. São três destinações distintas, mas que têm duas particularidades comuns: elas possuem um legítimo propósito, assim como reduzem o poder aquisitivo no presente. Existe até aquela máxima que diz: “Tudo que você ganha hoje é para você gastar hoje e no futuro”.

Culturalmente, o bom brasileiro comete o erro de ignorar esses cenários. Conta sempre com a ilusória facilidade dos crediários a perder de vista, com a falsa certeza de que está garantido no emprego – ou que, se demitido, logo encontrará outro trabalho – e com a ideia de que seu vigor físico e mental são condições vitalícias. A realidade, porém, mostra uma face bem mais perversa:


  • Crediários longos com juros escorchantes, abusivos, comem um pedaço cada vez mais significativo do rendimento mensal, até mesmo porque o ímpeto de comprar é muito maior do que a paciência de esperar chegar o fim das prestações. Soma-se a isso a extrema facilidade de adquirir algo com apenas um clique em lojas nas mídias sociais e no e-commerce. Nada mais tentador do que esbarrar com algo de desejo enquanto navegamos em fotos e mensagens do Instagram, sendo que, logo abaixo, encontramos um botão “Saiba mais” que nos leva a um portal de vendas que promete entrega imediata e pagamento facilitado. E o site ainda garante que o valor não tem acréscimo de juros! Mas tenho certeza absoluta de que você não acredita nisso, não é?


  • Já a necessidade da criação de uma reserva para emergências é completamente ignorada. Não somos estratégicos, portanto, não planejamos nossa própria vida. O máximo que fazemos é projetar como garantida a situação presente. Se temos saúde, emprego e boas condições de vida hoje, assumimos que assim será para sempre. A realidade vem e nos prega peças, muitas vezes cruéis: podemos perder a renda, ser atingidos por uma doença que nos incapacita momentânea ou permanentemente, ou ter nossas necessidades, como alimentação, habitação, entre outras – antes garantidas e confortáveis – ameaçadas.



  • Por fim, a aposentadoria está tão longe que não passa pelas nossas cabeças, nem sequer por um instante, restringir o conforto dos dias de hoje para garantir necessidades a longo prazo. É como pagar no presente por uma fração do meu altíssimo custo de plano de saúde e remédios que usarei daqui a duas ou três décadas. Isso é inimaginável! Mas os anos passam e o futuro, antes distante, torna-se um presente na qual podemos nos encontrar na velhice passando por dificuldades ou na dependência financeira dos filhos e parentes.


Para reforçarmos essa reflexão, indico abaixo alguns pontos importantes na construção do pensamento a respeito do assunto:


PONTOS IMPORTANTES


Propósito

Elemento recorrente em nossas vidas, o propósito também aparece aqui como fator fundamental para motivar a criação e manutenção de reservas financeiras. Sem a clareza de uma finalidade, não será possível concebermos o incentivo emocional necessário para que deixemos de usufruir dos recursos no momento presente para pensar no futuro. Além disso, quando fixamos um objetivo palpável, quantificável e planejado na unidade de tempo, podemos estabelecer uma estratégia na direção de sua realização. Isso vale para os três cenários acima. A variável será, então, o tempo.


Curto, médio e longo prazo

Para cada objetivo, haverá um prazo associado. É preciso que, ao formular o plano de poupança, tenhamos consciência da necessidade de satisfação do desejo em um tempo que faça sentido. E esse período estabelecido precisa estar em conformidade com a capacidade de pouparmos no presente. Normalmente, reserva-se entre 20% e 30% dos ganhos para esse fim.


Fluxo de ganhos e gastos

É necessário conhecermos em detalhes o que e como ganhamos, assim como em que e como gastamos. Para isso, temos que classificar ganhos em recorrentes fixos, variáveis e esporádicos. Além disso, devemos ser capazes de projetar de maneira realista os rendimentos totais futuros. No caso dos ganhos variáveis, a dica é trabalharmos com médias conservadoras.

Quanto aos gastos, a lógica é a mesma, porém com a análise adicional entre o que é essencial e o que não é. Podemos estabelecer parâmetros, como: essencial (alimentação, aluguel, condomínio, convênio médico e assim por diante); bom ter (vestuário, lazer, academia etc.); e supérfluo (viagens, eletrônicos, restaurantes, entre outros). Sei que estou me arriscando dando exemplos, porque o critério é extremamente subjetivo, mas achei que valeria a pena para tornar a visualização mais palpável. De qualquer forma, esse tipo de consciência é muito importante para que possamos dosar nossas excentricidades diárias, conforme o plano de poupança demandar, ou até mesmo fazer ajustes em momentos de necessidade.


SAÚDE FINANCEIRA E MAIS...


Vamos falar agora sobre cada uma das três motivações para se poupar:


Aquisição de bens ou serviços

Óbvio que não estamos falando de bens imobiliários com alto valor de aquisição, como um imóvel para moradia. Nesses casos, o financiamento é um instrumento essencial e muito acessível, restando apenas a necessidade de se buscar as melhores condições contratuais.

O que queremos abordar neste tópico é, por exemplo, a troca de um veículo por um modelo mais novo, a contratação de um pacote de viagem para a família ou, ainda, a compra de um aparelho eletrônico de última geração. Mesmo que você não saiba exatamente se o dinheiro vai mesmo ser gasto no objetivo planejado, pode ser interessante considerar a mesma lógica usada nos consórcios, nos quais um bem é posto como referência para fins de planejamento, ficando a decisão final para o fim do período estipulado.

Um aspecto comportamental muito importante nos dias de hoje, quando estamos com o nível de ansiedade acima do normal, é com relação à decisão de compra, cada vez mais facilitada pelo mundo digital. Precisamos saber resistir aos assédios diários do marketing via mídias sociais, ainda que a astúcia dos anunciantes, associada à precisão dos algoritmos, esteja tornando essa recusa muito complicada. Para tanto, é essencial termos a sabedoria de controlar nossos impulsos freando, então, o que os estudiosos já classificaram como compras compulsivas. Falaremos sobre isso um pouco mais adiante.


Reserva para emergências

Uma das principais emergências possíveis nos dias de hoje é a perda da fonte de renda, seja por demissão, seja por encerramento da atividade da fonte pagadora. De qualquer modo, o aspecto a considerarmos é a interrupção do fluxo de ganhos, causando, assim, uma ruptura na capacidade de compra. A linha de raciocínio aqui é baseada em uma análise de risco. Para quem vai iniciar uma poupança destinada a esse fim, recomendo que se atente para três variáveis: o valor estimado de gastos redimensionados para situação de crise; o número de meses necessários para recontratação e reposição do fluxo de ganhos; e o tempo de formação desse recurso.

Por se tratar de um montante relativamente fixo, salvo modificações nas premissas adotadas originalmente, sua formação será por um tempo certo. Por exemplo: se o valor estimado de gastos mensais for de 100, o número de meses para recontratação for estimado em seis, o montante necessário a ser acumulado será de 600. Esse valor deverá ser fracionado pela quantidade de meses que julgarmos possível sua alocação. Digamos que será composto em 12 meses, então a parcela de poupança mensal será de 50. Nesse sentido, é sempre recomendado ter em mente que quanto mais rápido melhor para não ser pego desprevenido.

O exercício de análise dos gastos proposto acima será de extrema utilidade aqui. Vivemos um momento de muitas incertezas, então, em períodos como esse, precisamos ser cirúrgicos ao fazer as alterações necessárias. Quando já temos o terreno mapeado, as ações tornam-se mais ágeis. Cortar gastos será inevitável, mas não devemos esquecer de harmonizar as decisões com a família. Já temos um problema a resolver, não podemos, em função dele, criar outro.

Outra ação paliativa será a de praticar uma atividade remunerada aproveitando os recursos e habilidades disponíveis. Talvez seja útil pensar com antecedência em um plano alternativo de renda usando os saberes, as experiências e os relacionamentos do seu network para um serviço temporário. Porém, lembre-se de fazer uma análise criteriosa do mercado antes de empreender, drenando, assim, parte de sua reserva financeira para isso.


Aposentadoria

Seu patrimônio no futuro não estará restrito ao financeiro, ou seja, é preciso incluir saúde física, mental (intelectual) e emocional no pacote. Não importa quanto tempo você tenha até a sua aposentadoria, menos ainda o que você tem feito até aqui. O importante, de verdade, é o que você vai fazer de hoje em diante. Seu bem-estar na velhice só depende de você. Os recursos da medicina têm se expandido de maneira surpreendente, mas será imprescindível que você faça a sua parte.


  • Saúde física

“Quem não tem tempo para se cuidar, haverá de achar tempo para se tratar”. Essa frase não é minha, nem tampouco conheço o autor, mas resolve de forma definitiva a questão da falta de tempo como desculpa para não praticar o autocuidado. Comecemos pela alimentação saudável, se possível orientada por um(a) nutricionista e balanceada na maioria das refeições, com folga para alguns deslizes, porque, afinal, ninguém é de ferro. Reduzir ou eliminar o consumo de carne vermelha pode ser uma boa opção. A atividade física regular com orientação médica é imprescindível. Sem exageros e buscando o melhor equilíbrio entre sua motivação, sua agenda e bons resultados. A dica é buscar algo que seja do seu gosto, como natação, corrida, lutas ou diversas outras modalidades de exercícios de salão ou externos. E não descuide dos exames de rotina. Mantenha uma agenda com seu médico para checkups periódicos.


  • Saúde mental

Mantenha sempre atividades balanceadas de estímulo mental. Estamos ligados diariamente a rotinas estressantes, tarefas repetitivas, sendo que algumas delas executamos por obrigação, com zero de satisfação. Procure alternativas que expandam sua capacidade mental. Livre-se do celular por algum tempo, faça caminhadas contemplativas, leia livros que saiam do roteiro técnico de trabalho. Pinte, cante, toque um instrumento. Aumente seu vocabulário com textos inusitados. Sua mente pensa através da linguagem, então quanto maior seu vocabulário, mais sofisticado e aberto seu pensamento será. Por fim, medite por alguns minutos diariamente, o que fará grande diferença em sua capacidade mental.


  • Saúde emocional

O melhor caminho para preservação da saúde emocional é o autoconhecimento, tanto para saber o momento certo de recuar e preservar sua integridade quanto para buscar desenvolvimento gradual e seguro. Quando você tem consciência de seus limites e de suas potencialidades, pode, então, se autorregular. Isso significa enfrentar situações do tamanho de sua musculatura e até arriscar um pouco mais com a certeza de que poderá suportar a carga. Se possível, conte com a orientação de um profissional qualificado. Esteja certo de que seu estado emocional se modificará à medida que o tempo passar, mas para isso acontecer é preciso estar aberto às mudanças.

  • Saúde financeira

Por fim, falaremos sobre dinheiro. Essa é a parte mais simples da equação. Sente-se e reflita: que tipo de vida você quer ter aos 65, 70, 80 anos? Quanto isso custa mensalmente? Por quanto tempo gozará desse benefício? Quanto tempo você tem de hoje até lá? A partir dessas análises, basta jogar todos esses parâmetros em simuladores oferecidos por instituições financeiras e conhecer o tanto que precisará poupar até lá. Talvez você esteja pensando que manterá uma atividade remunerada até o fim de sua vida e, portanto, não se enquadrará no estereótipo do aposentado de pijamas dentro de casa. Claro que não vai, o objetivo é continuar sendo uma pessoa ativa, ainda mais com os cuidados não financeiros citados acima. Porém, uma boa dica é que você, somente para fins de planejamento financeiro, assuma que não fará nada quando se aposentar ou que se dedicará ao que gosta, independentemente de remuneração. Esse tipo de raciocínio lhe ajudará bastante na elaboração de um plano.

Cuide da ansiedade

Talvez você esteja perguntando: o que esse tópico tem a ver com o tema? Minha resposta é: TUDO! A ansiedade é um dos principais males da vida moderna. Estamos cada vez mais condicionados ao imediatismo, ao “fast tudo”. O lapso de tempo necessário para a realização de algo está se tornando, a cada dia, mais insuportável, seja ele de meses, semanas, dias, horas, minutos ou segundos. Queremos tudo para já. Estamos nos transformando em uma usina de ansiedade, ainda mais no momento em que vivemos. O efeito disso tende a ser muito maléfico para a saúde e para as finanças. Neste último caso, os comportamentos ansiosos podem ser direcionados para um hábito compulsivo de comprar coisas que trazem apenas uma satisfação instantânea e fugaz. O resultado será, invariavelmente, a redução da capacidade de formação de reservas e patrimônio para o futuro.

O ímpeto de comprar se assemelha a qualquer outro ato impensado que praticamos por impulsividade. Precisamos, dessa forma, ter consciência do nosso estado emocional e da possibilidade de estarmos sendo acometidos pela compulsão da compra. Buscar orientação qualificada é fundamental. Paralelamente, conforme detalhado no artigo sobre autonomia emocional, a meditação em atenção plena (mindfulness) pode ajudar bastante no despertar desse estado de automatismo compulsivo em que vivemos, trazendo uma expansão da consciência para o dia a dia em várias frentes de atuação.


Conclusão


A questão financeira não está isolada do contexto da nossa vida. Sabemos que não adianta ter muito dinheiro e pouca saúde. Por outro lado, ter saúde e passar por privações também não é o melhor cenário. O ideal será sempre o equilíbrio entre as duas variáveis, e, nesse sentido, trabalhar a sabedoria para identificar o momento certo de dosar a ambição e curtir a vida fará todo o sentido.


Não esqueça:

“O presente é o passado do futuro, que você pode controlar”

Guardiano

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