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  • Foto do escritorLaudio Nogues

HUMANOTECNOLOGIA MEU MUNDO MINHAS REGRAS



No momento histórico em que especialistas divulgam carta alertando para o perigo eminente do desenvolvimento descoordenado da IA no mundo, trago, neste trabalho, mais um argumento na direção da conscientização do poder humano diante da ameaça das máquinas “inteligentes”. Chamo atenção para as regras do jogo na batalha de tecnologias NATURAL X ARTIFICIAL. Penso que esse seja o momento oportuno e, arriscaria dizer, derradeiro, antes do juízo final. Nós, humanos 100% biológicos, somos e ainda seremos por algum tempo os donos da bola, os reis da cocada preta, os que ainda distribuem as cartas. Assim, temos a prerrogativa de ditar o rumo das coisas. Mas se essa é uma verdade, por que então estamos sucumbindo? Por que estamos perdendo a nossa capacidade de gerar renda suficiente para retroalimentar a lógica do autodesenvolvimento e, consequentemente, de novos ciclos de prosperidade? Para nos situarmos e respondermos a essas perguntas, vamos ter que adentrar em alguns aspectos.


A AMEAÇA AO HUMANO MECANIZADO

Em sua recente obra, HUMANOS SUBESTIMADOS, Geoff Colvin pontua a respeito da nova ordem na lógica produtiva. Seu argumento decreta o fim da histórica e mútua dependência entre o capital e o trabalho. O fundamento capitalista, a partir da revolução industrial, sempre esteve galgado nesses dois pilares. A expansão do consumo generalizado concomitante com a capacidade produtiva crescente fez, por séculos, desses dois elementos (vale lembrar nem sempre com um convívio tão amigável) aliados inseparáveis. A medida em que trabalho mais capital geravam mais riqueza, maior a capacidade de consumo e de novos investimentos, consequentemente gerava mais oportunidades de aplicação de capital e de trabalho. Esse círculo virtuoso perpetua-se através da “domesticação” do humano. Esse humano que catava seletivamente seu alimento, caçava bravamente animais ferozes para satisfazer suas necessidades calóricas e, mais tarde, produzia criativamente e de maneira artesanal artefatos e utilitários essenciais para sua subsistência, foi levado a abdicar de seu conhecimento e de sua criatividade para postar-se diante de uma esteira rolante onde ele, humano, mecanicamente executava repetidamente uma pequena parte de todas as tarefas necessárias para a produção de um determinado produto. Acontece aí o início do processo de mecanização do ser humano. Processos bem definidos e detalhados elaborados por um pequeno grupo de pessoa bem pagas para esse fim determinavam rigidamente o que fazer. O humano então passa a ter como sua principal habilidade a capacidade de executar com precisão os mesmos gestos e atos no menor espaço de tempo possível tarefas manuais e repetitivas que exigem muito pouco ou quase nada de sua inteligência. Muitos anos passaram-se e fomos construindo essa lógica como nossa zona de conforto. Paralelamente, ferozmente incentivados pela busca insaciável da elevação da produtividade e capacidade de fazer mais com menos, a tecnologia veio sendo desenvolvida. A obtenção de mais precisão, mais rapidez em processos cada vez mais estáveis são objetivos diários do mundo capitalista e nessa busca muitos períodos tensos foram enfrentados. Porém, sempre houve uma brecha aberta na razão capital – trabalho que acabou por reacomodar as coisas. No entanto, estamos hoje diante de um inusitado desafio batizado por gurus e estudiosos como a era pós-humanista. A perfeição de movimentos da robótica aliada à inteligência artificial e ao machine learning vêm proporcionando ao capital o poder único de satisfazer todas as necessidades de trabalho sem a intervenção humana. A lógica produtiva resume-se então em capital que gera trabalho, o qual é atendido pelo próprio capital de maneira mais rápida, eficiente e estável. Mas por que fica tão fácil para a máquina derrotar o humano?


A ROBOTIZAÇÃO CEREBRAL

Em um linguajar simples e direto: o cérebro é como um músculo, se não usar atrofia. O cérebro dos humanos está atrofiado pela lógica imposta de mecanização das tarefas. Muitos entram em pânico quando são forçados a pensar fora da caixa. Mas por que não mudamos? Recorro aqui ao músculo novamente para explicar nossa grande resistência em ser diferente. Quando fazemos exercícios e somos conduzidos a executar movimentos que mexem com partes do corpo que não usamos usualmente, sentimos grande desconforto. A sensação de um esforço maior, a falta de coordenação. Isso nos leva imediatamente a pensar em desistir com o argumento de que isso não é para mim ou nunca gostei de exercícios. No dia seguinte, a tragédia completa-se, estamos semi aleijados, com uma dor paralisante. O mesmo acontece quando nos forçam a criar, usar o senso crítico, expressar-nos de forma didática, ter ideias, etc. O processo levou-nos a uma condição semi robótica, com alguns lampejos de rebeldia criativa. Somos humanos limitados em nossas potencialidades com um uso reduzido de nosso cérebro e totalmente vulneráveis à ameaça tecnológica. Somos presas fáceis para os infalíveis, ultra produtivos e cada vez mais cognitivos robôs. A lógica é perversa porque se a regra do jogo é fazer mais com menos, humanos robotizados não têm a menor chance. E qual será a saída, portanto? A resposta é simples: É PRECISO DESROBOTIZAR NOSSO CÉREBRO E ESTABELECER UMA NOVA ORDEM NESSE CAMPO DE BATALHA.


HUMANOTECNOLOGIA, A DESROBOTIZAÇÃO CEREBRAL

O sistema de troca de horas dedicadas por dinheiro está ruindo. Oito horas diárias em troca de um holerite (contracheque para outros) no fim do mês, sem que se associe diretamente essa dedicação ao valor agregado entregue não funciona mais na era pós-humanista. Humanos precisam criar e consolidar novas bases para essa relação com o capital. Esse é o nosso mundo, portanto prevalecerão as nossas regras. A tecnologia humana, puramente biológica precisa dar-se conta do poder de suas capacidades e acordar a tempo para virar esse jogo. Mas será que conseguimos enxergar isso? Será que estamos equipados intelecto e emocionalmente para saber o que queremos? Essa é uma jornada que precisa ter início em algum momento. Para falar a verdade, ela já começou em polos mais avançados de desenvolvimento. A realidade é que precisamos levantar a cabeça e expandir nossa atenção. Precisamos nos conhecer mais, gerir nossos impulsos, acreditar que somos capazes de criar coisas, experimentar, ter apreço pelo incerto, construir criativamente e ter certeza de que no momento certo, a nossa intuição captará algo inusitado e valioso. Crer no processo da HUMANOTECNOLOGIA e deixar a lógica mecanicista ser gradativamente absorvida pelas máquinas. Mas quais seriam então essas novas regras?


HUMANOTECNOLOGIA – MEU MUNDO MINHAS REGRAS

É óbvio que o processo é gradativo, não haverá o dia “D”, um momento em que as máquinas surpreendentemente sairão em bando detonando o mundo dos humanos. Porém, esse movimento gradual pode revelar-se uma grande vantagem ou, dependendo de cada um, uma ameaçadora ilusão. Dependerá da decisão individual que tomamos agora: se ficamos deitados em berço esplêndido esperando a luz divina vir nos salvar ou se entendemos de uma vez por todas o que está acontecendo e nos mobilizamos rumo à mudança. Se saímos do estado contemplativo de deslumbre em relação a todas as alternativas onde o prefixo/sufixo tecnologia aplica-se ou passamos a focar obstinadamente na nossa “HUMANOTECNOLOGIA”. A tecnologia biológica do poder humano deve ser trabalhada e elaborada de forma estratégica para o protagonismo. Muito tem-se publicado a respeito do futuro do trabalho, mas qual seria então a essência humana da HUMANOTECNOLOGIA capaz de levar-nos ao topo nessa jornada? Resolvi resumi-las em quatro e abreviá-las estrategicamente na sigla ECOS, equivalente às iniciais das virtudes EQUIDADE, CORAGEM, ORIGINALIDADE e SOCIABILIDADE.

CONCLUSÃO

Existem desafios gigantescos a serem superados no futuro breve da humanidade e com eles, um mundo de oportunidades em que muitas das quais ainda nem nos damos conta. Na era pós-humanista, o diferencial será justamente a capacidade de mergulhar mais profundamente na essência humana e ter a habilidade de usufruir dela. Trazer para o topo da lista a melhor e mais poderosa tecnologia na face da terra: a HUMANOTECNOLOGIA.

Encerro esse meu argumento com a imagem e a citação de um dos cientistas mais importantes do mundo contemporâneo. Citação extremamente atual e consciente de uma super-mente publicada em sua última obra, pós-morte, extraída de suas anotações: BREVES RESPOSTAS PARA GRANDES QUESTÕES. Exemplo singular de coragem e superação.

Stephen William Hawking foi um físico teórico e cosmólogo britânico e um dos mais consagrados cientistas do século. Doutor em cosmologia, foi professor lucasiano emérito na Universidade de Cambridge, um posto que foi ocupado por Isaac Newton, Paul Dirac e Charles Babbage.

"... existem outros desafios, outras grandes questões no planeta que devemos responder, e elas exigirão uma nova geração interessada, engajada e com compreensão da ciência. Como alimentar uma população cada vez maior? Como fornecer água limpa, gerar energia renovável, prevenir e curar doenças e refrear mudanças climáticas globais? Espero que a ciência e a tecnologia forneçam respostas a essas perguntas, mas serão necessárias pessoas, seres humanos com conhecimento e compreensão, que implantarão essas soluções. Devemos lutar para que todo homem e toda mulher tenham a oportunidade de viver vidas seguras e saudáveis, repletas de oportunidade e amor. Somos todos viajantes do tempo em uma jornada rumo ao amanhã. Mas vamos trabalhar juntos na construção desse futuro, um lugar que queremos visitar.

Seja corajoso, seja determinado, supere as probabilidades. É possível."

Autoria desse artigo: Laudio Nogues

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

COLVIN, Geoff. Humanos subestimados. São Paulo: DVS, 2016.

HARARI, Yuval Noah. Homo Deus: uma breve história do amanhã. São Paulo: Cia. das Letras, 2015.

HAWKING, Stephen. Breves respostas para grandes questões. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.

FREY, Carl Benedikt / OSBORNE, Michael A / HOLMES, Craig. TECHNOLOGY AT WORK v2.0 The future is not what it used to be. Citi GPS: Global Perspectives & Solutions, 2016


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