Empatia de olhos vendados
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Há experiências que permanecem conosco por toda a vida. Esta foi uma delas. Surgiu a partir da proposta de um professor durante o extraordinário curso de imersão em Design Thinking que tive o privilégio de participar.
Confesso que minha primeira reação foi de constrangimento. Poucos instantes depois, porém, cedi à oportunidade de extrair tudo o que aquela dinâmica poderia me oferecer.
Muito se fala sobre a necessidade de um mundo em que as pessoas sejam mais empáticas, pacientes e verdadeiramente dispostas a se doar quando estão diante da dor de outro ser humano. Um mundo em que possamos enxergar, sentir e contribuir para aliviar, ainda que somente um pouco, a dor do outro.
Há inúmeras tentativas de definir empatia em palavras. Eu mesmo já me aventurei nessa tarefa. Hoje, entretanto, percebo que qualquer definição parece pequena diante da profundidade desse sentimento.
O exercício era simples na forma e profundo na essência.
Metade da turma teria os olhos completamente vendados; a outra metade formaria duplas com os colegas vendados e atuaria apenas como apoio para evitar situações de risco. Nossa missão era subir a rua em frente à escola, caminhar cerca de 150 a 200 metros até a Avenida Santo Amaro, entrar em um supermercado e comprar algo de que estivéssemos precisando em casa.
Tudo isso de olhos vendados.
O colega podia apenas garantir nossa segurança física, evitando acidentes. Não poderia ajudar a localizar o produto, indicar marcas ou facilitar o pagamento. Era preciso enfrentar aquela situação cotidiana da forma mais próxima possível da realidade vivida por uma pessoa com deficiência visual.
Ao final da experiência, depois de concluir a compra e retirar a venda, fui tomado por uma sensação difícil de descrever. As luzes, as cores, os rostos das pessoas e todo o ambiente ao meu redor pareciam extraordinariamente intensos. Foi como se eu estivesse vendo tudo pela primeira vez.
Aquele supermercado era completamente desconhecido para mim. Nunca havia estado ali. Enquanto permaneci vendado, tudo parecia um grande vazio: um universo escuro, tenso e silencioso. Em contrapartida, a audição, o olfato e a percepção dos pequenos detalhes tornaram-se muito mais aguçados.
Naquele momento, uma constatação me atravessou: vivemos em um mundo projetado para aqueles que se encaixam no padrão considerado "normal". Quem foge desse padrão precisa, diariamente, desenvolver estratégias para fazer parte dele.
Mas gostaria de levar essa reflexão para situações muito mais presentes em nossas vidas.
Na maior parte do tempo não convivemos com pessoas oficialmente classificadas como deficientes — salvo aqueles que, por escolha ou vocação, dedicam sua vida a esse trabalho. Convivemos com pessoas aparentemente "perfeitas".
O uso das aspas é proposital.
A ideia de perfeição depende sempre de um padrão de comparação. É preciso existir um modelo para que algo possa ser considerado perfeito.
É justamente aí que nasce uma reflexão importante.
Em diferentes aspectos e em diferentes intensidades, todos nós somos deficientes em alguma dimensão da existência.
Cada um carrega limitações invisíveis aos olhos dos outros.
O problema é que minha ideia de perfeição é apenas minha. Ela caminha lado a lado com meu poder de julgamento. E esses dois elementos são como combustível e faísca: quando se encontram, tornam muito mais difícil o nascimento da verdadeira empatia.
Meu padrão pessoal me conduz a julgamentos rápidos. Esses julgamentos produzem uma análise superficial da realidade e, quase sempre, transferem a origem do problema para a suposta "deficiência" do outro.
É como ouvir alguém relatar profundas dificuldades na vida profissional e responder, quase automaticamente: "Troque de emprego", "Chute o balde" ou qualquer outra solução imediatista.
Essas respostas costumam aliviar muito mais o desconforto de quem escuta do que a dor de quem verdadeiramente precisa ser compreendido.
A escuta verdadeiramente empática exige treino, disciplina e disposição permanente. Nossa mente foi condicionada ao imediatismo. Queremos compreender rápido, responder rápido e resolver rápido.
Desenvolver empatia é um exercício consciente e cotidiano.
Para isso, precisamos antes conhecer a nós mesmos. Precisamos identificar nossos julgamentos automáticos, vieses, medos e os sabotadores que silenciosamente influenciam a maneira como interpretamos as pessoas e suas histórias.
"Mas qual é o benefício disso?", alguém poderia perguntar.
Talvez a verdadeira empatia não comece quando aprendemos a enxergar melhor o outro. Talvez ela comece quando reconhecemos as vendas invisíveis que ainda cobrem os nossos próprios olhos.





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