Cuida da PAZ
- 18 de set. de 2025
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O tema que mais tem me chamado a atenção, sobretudo neste momento em que vivemos, é o que se encontra sob o título “Cuida da Paz”. A razão dessa escolha está vinculada, acima de tudo, ao clima separatista e de ódio que transborda das mídias e das manifestações políticas atuais.
Vivemos em um país dividido em dois polos que pensam de forma radicalmente oposta, sustentando uma lógica rasa de “nós contra eles”. Sem entrar no mérito das forças que impulsionam cada lado, desejo desenvolver meu argumento tendo como pano de fundo esse clima polarizado, que nos afeta a todos, mesmo quando tentamos nos manter distantes.
É quase uma ironia do destino que, logo após atravessarmos a maior crise sanitária e humanitária do planeta, nos vejamos mergulhados em ânimos tão excludentes e beligerantes. O fim da pandemia foi praticamente ontem e já negamos, com veemência, o espírito de solidariedade e união que parecia ter brotado nos momentos mais críticos. Durante dois anos e meio, alimentamos a esperança de que aprenderíamos lições profundas e nos tornaríamos seres humanos mais evoluídos. Contudo, o teste veio logo a seguir — e o resultado tem se mostrado decepcionante. A evidência é clara: ainda temos um longo caminho a percorrer para incorporar uma atitude pautada por uma visão mais ampla do que realmente importa.
Apesar de habitarmos um país repleto de segmentações e recortes, há uma compreensão que se sobrepõe a todas:
“O todo descansa na parte, e a parte só tem sentido pelo todo.”
Quando abandonamos as bandeiras e retóricas e refletimos a partir de um ponto de vista mais elevado, percebemos que o conflito se enraíza sempre nos níveis mais primitivos das intenções e dos objetivos.
Vale lembrar a pedagogia do vírus: um elemento invisível que se infiltrou em toda a sociedade da maneira mais democrática possível. Não fazia distinção de classe social, credo, gênero ou geografia. O risco era generalizado e máximo — a perda da própria vida. Todos estivemos expostos, seja pela necessidade, seja pelo inconformismo diante das restrições. O ponto de convergência era um só e tinha um apelo extraordinário: a sobrevivência. Nesse período, aprendemos a valorizar aqueles que antes eram invisíveis: entregadores, profissionais da saúde, motoristas do transporte público, coletores de lixo e tantos outros. Ao mesmo tempo, participamos de uma onda de solidariedade que mobilizou recursos de toda ordem, enquanto acompanhávamos, estarrecidos, a escalada dos números de infectados e mortos. Houve um instante em que acreditei que algo maior estava conduzindo nossa razão e nosso sentimento para o caminho certo. Parece que me enganei.
A pergunta que se impõe é: o que aconteceu em tão pouco tempo? Por que estamos nos xingando, rompendo relações e até nos matando? O que nos falta para compreender que “todos nós somos ilhas, unidas pelo mesmo oceano...” (Anne Lindbergh)? Talvez estejamos mergulhados em uma alienação “normótica”, como descreveu Pierre Weil, presos à fantasia da separatividade, regidos e fidelizados ao egocentrismo, em vez de guiados pelo Self.
A necessidade de um levante rumo a uma terceira via é urgente. Não uma terceira via que reproduza a mesma lógica egóica, mas uma alternativa que transcenda a dualidade. Uma visão inclusiva, voltada para o bem maior, onde o ego — parte necessária de nossa identidade humana — ocupe um papel subordinado ao Self, nosso “EU” mais profundo. Para isso, será preciso assumir a primeira tarefa do processo de individuação, como propôs Jung:
“Desenvolver um bom ego, enraizado no solo da cidadania, curado de suas feridas, pacificado em seus conflitos, apaziguado em seus temores.”




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