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A "Atração Fatal" das Nossas Emoções

há 33 minutos
6 min de leitura
Nota do autor: Este artigo é uma versão revista e ampliada de “Autonomia Emocional”, texto originalmente publicado em 18 de maio de 2021. A presente edição atualiza e aprofunda algumas reflexões, preservando a essência da publicação original.
Nota do autor: Este artigo é uma versão revista e ampliada de “Autonomia Emocional”, texto originalmente publicado em 18 de maio de 2021. A presente edição atualiza e aprofunda algumas reflexões, preservando a essência da publicação original.

Nem sempre aquilo que nos prejudica é desagradável. Alguns dos comportamentos que mais comprometem nossa liberdade oferecem recompensas tão sedutoras que sequer percebemos estar presos a eles. Ser admirado, sentir-se indispensável, ter sempre razão, receber elogios ou conquistar a aprovação das pessoas são experiências gratificantes. E não há absolutamente nada de errado nisso. O problema começa quando deixamos de desejá-las e passamos a precisar delas.


É curioso como podemos nos tornar dependentes de determinadas recompensas emocionais sem perceber o quanto elas influenciam nossas decisões. Às vezes, fazemos aquilo que não gostaríamos, assumimos compromissos que não desejamos ou reagimos de maneira desproporcional a situações aparentemente banais. E, quando nos damos conta, lá estamos nós repetindo comportamentos que prometemos abandonar. Mas por que será que isso acontece?


Desde a infância, desenvolvemos maneiras de lidar com as dificuldades, ameaças e exigências do ambiente em que vivemos. Aprendemos a buscar proteção, reconhecimento, segurança e afeto, construindo estratégias que nos ajudam a enfrentar situações nem sempre confortáveis. Algumas funcionam tão bem que passam a fazer parte do nosso comportamento habitual. O problema é que continuamos recorrendo a elas mesmo quando as circunstâncias que justificaram seu surgimento já não existem. Aquilo que um dia nos protegeu pode, com o passar do tempo, transformar-se numa importante limitação.


É o que acontece com os chamados sabotadores internos, padrões de pensamento e comportamento que, muitas vezes sem percebermos, interferem nas nossas escolhas e nos levam a agir de maneiras contrárias aos nossos próprios interesses. Vejamos o exemplo de João Pedro.

Durante boa parte da infância e da adolescência, João Pedro buscou, quase sempre sem sucesso, conquistar o reconhecimento dos pais. Queria ser valorizado, receber elogios, perceber que seus esforços eram importantes. Aos poucos, descobriu que ser prestativo, atender às expectativas e colocar as necessidades dos outros à frente das suas poderia lhe proporcionar alguma aprovação. E assim foi construindo sua maneira de se relacionar com o mundo.


Na vida adulta, João Pedro tornou-se aquele sujeito com quem todos podem contar. Está sempre disponível, oferece ajuda antes mesmo de ser solicitado e dificilmente diz não. É admirado pela generosidade e pela dedicação aos outros. Até aí, tudo muito bonito. O problema é que João Pedro não consegue distinguir quando está ajudando porque realmente deseja fazê-lo e quando está apenas tentando evitar o desconforto de desagradar alguém. Quando pensa em recusar um pedido, sente culpa. Quando não recebe reconhecimento por seus esforços, fica ressentido. Quando percebe que alguém está insatisfeito com ele, faz o possível para recuperar sua aprovação.


E, curiosamente, continua acreditando que age assim porque o mundo precisa de pessoas mais generosas. Percebam como essa armadilha pode ser traiçoeira. João Pedro encontra satisfação em ser necessário, admirado e reconhecido. Essas recompensas reforçam um comportamento que, embora aparentemente virtuoso, compromete sua liberdade de escolha. Ele não precisa deixar de ser prestativo. Precisa deixar de depender emocionalmente da aprovação que recebe por ser prestativo. É aí que mora a atração fatal.


O caso de João Pedro está longe de ser uma exceção. Pense naquele profissional que precisa ter sempre a última palavra. Ele pode acreditar que está apenas defendendo suas convicções, quando, na verdade, sente enorme desconforto diante da possibilidade de estar errado. Ou naquele executivo que centraliza todas as decisões porque acredita que ninguém fará o trabalho tão bem quanto ele. A sensação de controle lhe oferece segurança e importância, mesmo que o excesso de responsabilidades esteja comprometendo sua saúde e o desenvolvimento da equipe. Há também quem transforme cada atividade numa competição, quem se cobre resultados extraordinários o tempo todo ou quem evite conversas difíceis para não enfrentar a possibilidade de rejeição.


Em todos esses casos, existe algo em comum: determinados comportamentos oferecem uma recompensa emocional imediata, mesmo quando produzem consequências desfavoráveis no longo prazo. O reconhecimento, a sensação de superioridade, a segurança do controle ou o alívio de evitar um conflito podem funcionar como pequenas gratificações que nos mantêm presos aos nossos próprios hábitos. E o mais intrigante é que frequentemente encontramos justificativas bastante convincentes para continuar agindo da mesma maneira. O controlador se considera responsável. O hiper-realizador se vê como alguém comprometido com a excelência. O prestativo acredita que sua generosidade não conhece limites. Não que essas qualidades sejam negativas. Muito pelo contrário. A diferença está na motivação, na intensidade e, principalmente, na liberdade de escolher quando e como utilizá-las.


Conquistar autonomia emocional plena talvez seja uma pretensão utópica. Afinal, somos seres humanos, influenciados por experiências, crenças, necessidades e emoções que nem sempre conseguimos compreender inteiramente. Mas isso não significa que devamos nos resignar a viver sob o comando de nossos automatismos. A autonomia emocional não consiste em eliminar sentimentos desagradáveis ou fazer com que a razão domine permanentemente as emoções. Significa desenvolver a capacidade de reconhecer aquilo que sentimos, compreender como isso influencia nossas decisões e ampliar nossa liberdade para agir de maneira consciente.


E essa conquista começa por algo aparentemente simples: perceber. Perceber o que acontece quando alguém contraria nossa opinião, quando recebemos uma crítica, quando somos ignorados ou quando surge aquela necessidade quase irresistível de provar nosso valor. Nessas situações, nossos pensamentos costumam chegar acompanhados de manifestações físicas: tensão muscular, aceleração dos batimentos cardíacos, inquietação, desconforto abdominal e tantas outras sensações. O corpo, muitas vezes, anuncia uma reação antes mesmo que consigamos compreendê-la. Reconhecer esses sinais pode nos ajudar a identificar os padrões que estão assumindo o comando.


Uma estratégia interessante é dar um apelido ao personagem que costuma aparecer nessas ocasiões. Pode ser o Crítico, o Controlador, o Gostosão ou qualquer outro nome que facilite seu reconhecimento. Parece brincadeira, mas esse pequeno exercício pode ajudar a criar uma distância entre aquilo que estamos pensando e aquilo que realmente somos. Em vez de aceitar como verdade absoluta o pensamento que surge, podemos reconhecê-lo como uma manifestação de um padrão conhecido. Pronto! Lá vem o Gostosão querendo mostrar serviço outra vez! O importante não é entrar em guerra com esse personagem, mas perceber sua presença antes que ele decida tudo por nós.


Há, entretanto, um cuidado importante nessa jornada. Reconhecer nossos padrões de autossabotagem nem sempre é agradável. Às vezes, descobrimos que comportamentos dos quais nos orgulhávamos escondem inseguranças, medos ou necessidades emocionais que preferíamos não enxergar. E então corremos o risco de transformar o autoconhecimento em mais um instrumento de cobrança e condenação pessoal. Mas pense bem: se esses mecanismos foram desenvolvidos ao longo da nossa história como tentativas de proteção, por que deveríamos nos tratar com hostilidade simplesmente por reconhecê-los?


Isso não significa justificar atitudes inadequadas ou fugir das responsabilidades. Significa compreender que podemos reconhecer nossas limitações sem transformar cada descoberta numa sentença sobre nosso próprio valor. Afinal, ninguém precisa se condenar para conseguir mudar. Talvez devêssemos oferecer a nós mesmos um pouco da compreensão que costumamos dedicar às pessoas que amamos. Reconhecer as dificuldades, assumir as consequências das nossas escolhas e seguir aprendendo, sem exigir uma perfeição que jamais esteve ao nosso alcance. Essa atitude não elimina a necessidade de mudança. Ao contrário, pode criar condições mais favoráveis para que ela aconteça.


Ao longo dos anos, tenho observado como o desenvolvimento da autopercepção pode transformar nossa relação com os acontecimentos cotidianos. Uma crítica continua podendo incomodar. Uma rejeição ainda pode provocar tristeza. A possibilidade de perder o controle de uma situação pode continuar despertando insegurança. A diferença é que essas experiências não precisam determinar automaticamente aquilo que faremos em seguida.


Podemos sentir vontade de responder agressivamente a uma crítica e, ainda assim, escolher ouvir. Podemos experimentar culpa ao recusar um pedido e, mesmo assim, reconhecer que temos o direito de estabelecer limites. Podemos nos sentir inseguros ao delegar uma responsabilidade e decidir confiar na capacidade de outra pessoa.


É nesse espaço de liberdade que autoestima, assertividade e resiliência deixam de ser apenas qualidades desejáveis e passam a fazer parte da nossa maneira de viver. A autoestima nos ajuda a reconhecer nosso valor sem depender permanentemente da aprovação externa.


A assertividade permite expressar necessidades, opiniões e limites sem submissão ou agressividade. E a resiliência favorece nossa capacidade de atravessar adversidades sem perder a disposição de aprender e recomeçar. Nenhuma dessas capacidades surge simplesmente porque decidimos possuí-las. Todas exigem atenção, persistência e disposição para reconhecer os próprios hábitos.


É também nesse contexto que encontro uma conexão especial com o Habitar o Presente. Cultivar a presença é desenvolver a capacidade de perceber o que está acontecendo conosco enquanto a vida acontece. É reconhecer pensamentos, emoções e sensações sem precisar reagir imediatamente a cada um deles. A prática regular de Mindfulness pode contribuir para esse desenvolvimento, favorecendo uma relação mais consciente e acolhedora com nossa experiência interior.


Não se trata de impedir que os velhos personagens apareçam. Eles provavelmente continuarão fazendo suas visitas, algumas bastante inconvenientes. A diferença é que podemos aprender a recebê-los sem entregar as chaves da casa. E talvez seja essa uma das maiores conquistas da autonomia emocional: descobrir que não precisamos eliminar nossos medos, inseguranças ou necessidades de reconhecimento para deixar de ser governados por eles.


A verdadeira liberdade não está em controlar tudo o que sentimos, mas em ampliar nossa capacidade de escolher o que fazer com aquilo que sentimos.


Afinal, o inimigo que parecia morar dentro de nós talvez seja apenas um antigo protetor que ainda não percebeu que já não precisa assumir o comando.


E, quando conseguimos compreender isso, a tranquilidade começa a fazer com que nossas palavras e ações encontrem a justa medida.

 
 
 

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