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A espessura da casca conta

há 10 minutos
4 min de leitura

Há muitos anos conto em minhas palestras uma história que vivi observando o nascimento de pintinhos em uma chocadeira elétrica. Para quem nunca viu uma, trata-se de uma caixa de tampa transparente onde vários ovos são colocados em um ambiente que reproduz as condições de temperatura e umidade necessárias para a incubação.

Ao observarmos a primeira ninhada, percebemos que alguns pintinhos rompiam a casca com relativa rapidez. Outros pareciam travar uma verdadeira batalha para conseguir sair do ovo. Era difícil assistir àquele esforço sem sentir vontade de ajudar. E foi exatamente o que fizemos algumas vezes: diante de um pintinho que parecia exausto, quebrávamos cuidadosamente parte da casca para facilitar sua saída.

O resultado, porém, contrariava nossa boa intenção. Alguns daqueles pintinhos que haviam recebido ajuda nasciam extremamente frágeis. Tinham dificuldade para se sustentar e, em alguns casos, acabavam morrendo.

Durante muitos anos extraí dessa experiência uma lição que me parecia evidente: o esforço para romper a casca fazia parte do processo de fortalecimento necessário à própria vida. Ao retirar do pintinho aquela dificuldade, também retirávamos dele uma etapa importante de seu desenvolvimento.

A metáfora passou a fazer parte das minhas reflexões sobre desenvolvimento humano. Nem toda dificuldade deve ser eliminada. Há desafios que precisam ser atravessados porque é justamente o esforço empregado para superá-los que desenvolve os recursos de que precisaremos depois.


Em outras palavras:

dificuldade + esforço próprio = fortalecimento e evolução.


Continuo acreditando que existe verdade nessa ideia. Mas hoje percebo que existe apenas parte da verdade.

Curiosamente, não foi uma nova teoria sobre desenvolvimento humano que me levou a questioná-la. Foram os dois ovos que preparo quase todas as manhãs para o café.

Ao quebrá-los repetidamente, comecei a perceber algo banal que durante todos aqueles anos havia escapado à minha reflexão: as cascas dos ovos não têm todas a mesma dureza. Algumas cedem ao menor impacto. Outras exigem uma força surpreendentemente maior.

E então voltei mentalmente à chocadeira.

Minha interpretação sempre havia concentrado toda a atenção no pintinho. Se um conseguia romper a casca e outro tinha dificuldade, a variável parecia estar exclusivamente nele: mais vigor, menos vigor; mais capacidade, menos capacidade.


Mas e a casca?


E se aqueles pintinhos não estivessem enfrentando exatamente o mesmo desafio?

Pode certamente haver pintinhos mais ou menos vigorosos. Seria absurdo negar as diferenças individuais. Mas também existem cascas mais ou menos resistentes.

A partir do momento em que reconhecemos as duas variáveis, a conclusão se torna muito mais complexa.

Dois pintinhos igualmente vigorosos podem enfrentar dificuldades muito diferentes para nascer. Da mesma maneira, dois seres humanos igualmente capazes, determinados e trabalhadores podem encontrar resistências profundamente diferentes em suas trajetórias.

Isso me fez revisitar não apenas a história da chocadeira, mas também o homem que originalmente a interpretou.

Minha primeira conclusão foi feita por um executivo acostumado à lógica do esforço recompensado. Eu enxergava com muita clareza o valor da disciplina, da responsabilidade individual, da perseverança, do protagonismo. Minha própria trajetória profissional reforçava essa compreensão.

Quem se esforça, supera obstáculos e cresce.

Não considero essa lógica falsa hoje. Considero-a incompleta.

Porque ela olha predominantemente para aquele que tenta romper a casca e presta pouca atenção à espessura da casca que lhe coube romper.

Ao longo da vida, fui compreendendo melhor a enorme desigualdade das condições encontradas pelos seres humanos na busca por seu lugar ao sol. Condições familiares, econômicas, sociais, educacionais, emocionais, culturais e tantas outras interferem profundamente no grau de dificuldade encontrado por cada pessoa.


Não começamos todos do mesmo lugar.

Não encontramos as mesmas portas abertas.

Não recebemos os mesmos estímulos.

Não carregamos os mesmos medos.

Não encontramos a mesma resistência.

As cascas não têm a mesma espessura.


Essa percepção também modifica a questão da ajuda.

Minha conclusão anterior poderia levar a uma interpretação perigosa: se o esforço fortalece, ajudar enfraquece. Hoje não vejo dessa maneira.

Existem ajudas que substituem o esforço do outro e podem, de fato, impedir o desenvolvimento da autonomia. Mas existem ajudas que criam condições para que o outro consiga realizar o esforço que precisa realizar. São coisas completamente diferentes.

Talvez, portanto, a questão não seja escolher entre ajudar ou não ajudar.

A questão é compreender qual ajuda favorece o desenvolvimento sem ocupar o lugar daquele que precisa se desenvolver. Não quebrar a casca pelo outro.

Mas também não permanecer indiferente diante de uma casca excepcionalmente espessa, justificando nossa omissão com a crença confortável de que basta querer suficientemente para conseguir rompê-la.

Hoje continuo acreditando profundamente no esforço, na responsabilidade individual e no protagonismo. Apenas já não consigo olhar para o resultado de uma pessoa e concluir automaticamente quanto ela se esforçou ou do que seria capaz.

Porque aprendi a olhar também para a casca.

Talvez essa mudança de interpretação seja, ela própria, uma pequena demonstração daquilo que chamo de expansão da consciência. O fenômeno permaneceu o mesmo. A chocadeira permaneceu a mesma. Os pintinhos permaneceram os mesmos.


Quem mudou fui eu.


E, ao mudar, passei a enxergar uma variável que sempre esteve diante dos meus olhos.

Por isso, se tivesse hoje de resumir novamente aquela antiga história, eu não abandonaria sua mensagem original. Apenas acrescentaria aquilo que minha consciência, naquele momento, ainda não conseguia perceber:


Há cascas que precisamos romper por nós mesmos, porque o esforço necessário para vencê-las também nos fortalece. Mas, antes de julgarmos alguém pela dificuldade de romper a sua, precisamos reconhecer que nem todas as cascas têm a mesma espessura.


Talvez seja exatamente aí que o desenvolvimento humano deixe de ser apenas uma questão de desempenho e passe a ser, também, uma questão de consciência e humanidade.

 
 
 

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