Sempre Não É Todo Dia

Sábia expressão colhida da canção de mesmo nome de Oswaldo Montenegro, que nos lembra que certas coisas podem ser para sempre, mas SEMPRE NÃO É TODO DIA.
Há um período mágico na nossa trajetória profissional em que assumimos o posto daquele considerado a grande promessa, o talento especial, a pessoa em quem todos depositam suas expectativas. Lembro-me de um chefe inglês que costumava chamar essa figura de White Knight, o cavaleiro branco. Aquele em quem a maioria das pessoas aposta todas as suas fichas. Todos os olhares se voltam para nossa direção, os astros parecem se alinhar na órbita correta e então, BUM! Tornamo-nos os poderosos príncipes ou princesas da Corte.
E que ninguém venha dizer que isso não é bom! O reconhecimento é uma experiência maravilhosa. Ser valorizado por nossas realizações, perceber a confiança das pessoas e desfrutar dos resultados de uma trajetória construída com dedicação são recompensas legítimas e merecidas. O problema começa quando nos acostumamos tanto com essa condição que passamos a considerá-la permanente.
A convivência com o sucesso tem duas faces: os momentos gloriosos dos holofotes e da exposição e o trabalho árduo, muitas vezes solitário, dos bastidores. É imprescindível que tenhamos consciência de que a longevidade do nosso principado dependerá, em grande parte, da habilidade de transitar naturalmente entre essas duas condições. E há outra certeza, por vezes dolorosa: não venceremos todas.
Pense em um atleta que sobe ao lugar mais alto do pódio. Todos estão lá aplaudindo, exaltando seu nome e celebrando a conquista. Mas somente ele conhece a dimensão dos sacrifícios, das frustrações e das derrotas que precisou enfrentar para chegar até ali. O público presencia a glória. O protagonista conhece a jornada. E sabe que, no dia seguinte, os treinamentos recomeçam, com ou sem aplausos.
O grande desafio então é estar seguro o suficiente a respeito do quão valioso nós somos para sermos capazes de encarar as críticas e, pior, as indiferenças, sem perder o frescor do entusiasmo ou o desejo do recomeço.
Talvez seja essa uma das armadilhas mais sutis do sucesso. Aos poucos, podemos começar a confundir aquilo que conquistamos com aquilo que somos. Enquanto os resultados são favoráveis e o reconhecimento acontece, tudo parece em ordem. Mas basta uma derrota, uma crítica mais contundente ou mesmo a ausência daquele elogio esperado para que nossa segurança comece a vacilar. E então surge uma pergunta que nem sempre temos coragem de fazer: será que estamos decepcionados com o resultado ou incomodados porque deixamos de ocupar o lugar de destaque ao qual nos acostumamos?
Não há nada de errado em desejar reconhecimento. O problema é passar a depender dele para reconhecer nosso próprio valor. Quando isso acontece, deixamos de desfrutar das conquistas e começamos a viver sob a obrigação de repeti-las. Cada vitória precisa ser maior que a anterior e qualquer tropeço parece ameaçar toda a trajetória construída.
Por isso, precisamos aprender a desfrutar das vitórias e absorver as derrotas sem transformar cada resultado num julgamento sobre quem somos. E aqui cabe uma distinção importante: isso não significa que devemos permanecer imunes à tristeza, à vergonha ou à frustração. Esses sentimentos fazem parte da vida. O que precisamos evitar é que uma experiência desfavorável se transforme numa condenação pessoal.
Uma decisão equivocada não apaga uma história de boas decisões. Uma derrota não elimina nossas capacidades. E a indiferença de alguém não determina o nosso valor. Podemos reconhecer nossos erros, assumir suas consequências e aprender com eles sem perder a confiança necessária para seguir adiante.
Aliás, talvez uma das maiores demonstrações de maturidade seja justamente a capacidade de olhar para nossas próprias falhas com honestidade, mas sem a crueldade que tantas vezes reservamos a nós mesmos. Não se trata de encontrar desculpas ou aliviar responsabilidades. Trata-se de compreender que somos seres humanos em permanente aprendizado, e não máquinas programadas para acertar sempre.
É curioso como conseguimos ser compreensivos com as dificuldades de pessoas que admiramos e, ao mesmo tempo, implacáveis diante dos nossos próprios tropeços. Talvez devêssemos experimentar um pouco dessa mesma compreensão conosco. Afinal, ninguém precisa se sentir um fracassado para reconhecer que fracassou em determinada tentativa.
O valor dos dias comuns
Existe ainda uma realidade da qual não podemos escapar: tudo muda. As posições que ocupamos, os resultados que alcançamos, as expectativas que despertamos e até a importância que outras pessoas atribuem às nossas realizações.
A vitória de ontem não garante os aplausos de hoje. E isso não significa necessariamente que tenhamos perdido nosso valor. Significa apenas que a vida continua, novas circunstâncias surgem e os holofotes mudam de direção.
O problema é quando permanecemos emocionalmente presos à necessidade de recuperar aquele lugar de destaque. Em vez de viver as oportunidades do presente, passamos a comparar tudo com um passado glorioso ou a perseguir um futuro no qual esperamos voltar a ser reconhecidos.
E, nessa busca, corremos o risco de deixar escapar justamente aquilo que temos de mais concreto: a vida que está acontecendo agora.
É nesse ponto que encontro uma conexão especial com o Habitar o Presente. Não precisamos abandonar nossas ambições, diminuir nossos sonhos ou fingir indiferença diante das conquistas. Precisamos apenas aprender a viver cada experiência pelo que ela representa, sem exigir que dure para sempre e sem permitir que determine, sozinha, o valor que atribuímos a nós mesmos.
Estar presente também é saber desfrutar dos dias comuns, daqueles em que não há grandes vitórias, homenagens ou manifestações especiais de reconhecimento. É perceber que a vida não perde sua importância quando os holofotes se apagam. Afinal, convenhamos, é justamente nesses dias que passamos a maior parte da nossa existência.
Enfim, a verdade é que precisamos aprender a assumir nosso papel de plebeus trabalhadores para que possamos desfrutar, quando acontecer, da nossa condição eventual de príncipes ou princesas. Conviver com os momentos de baixa, reconhecer nossas dificuldades e preservar o entusiasmo para continuar aprendendo, realizando e, quando necessário, recomeçando.
Os aplausos são bem-vindos, as conquistas merecem ser celebradas e o reconhecimento é sempre gratificante. Mas não podemos entregar a essas circunstâncias a responsabilidade de determinar nosso próprio valor.
Porque podemos continuar sendo quem somos, com toda a nossa história, nossas capacidades e nossas possibilidades, mesmo quando ninguém está olhando.
E, como tão bem nos lembra Oswaldo Montenegro em um verso de sua canção:
“Eu hoje acordei tão só
Mais só do que eu merecia
...
Princesa eu sei que sou pra sempre
Mas sempre não é todo dia”
E para quem quiser prolongar essa reflexão, vale a pena ouvir a canção de Oswaldo Montenegro que inspirou este artigo.
Logo abaixo, o link.





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