Tudo é questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo

Laudio Nogues | Outubro de 2026
Nunca na história recente o poderoso mantra musical criado por Walter Franco, no final dos anos 70, pareceu tão necessário. A canção nos convida a cultivar três condições aparentemente simples: a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.
Mais de quatro décadas depois, o mundo mudou radicalmente. Mas a necessidade de preservar nosso equilíbrio diante das turbulências da vida permanece a mesma. Talvez tenha se tornado ainda mais urgente.
Motivos não faltam para que vivamos exatamente no estado oposto ao sugerido pela canção.
A instabilidade política, tanto no Brasil quanto no cenário internacional, alimenta um ambiente de polarização, intolerância e imprevisibilidade. Conflitos armados, disputas econômicas e ameaças à paz mundial fazem com que acontecimentos geograficamente distantes invadam nossa vida cotidiana, provocando insegurança sobre um futuro que parece cada vez menos previsível.
Ao mesmo tempo, assistimos a uma transformação tecnológica sem precedentes. A inteligência artificial, que há poucos anos parecia pertencer ao universo da ficção científica, passou a ocupar espaços cada vez maiores em nossas atividades profissionais, relações pessoais e processos de decisão.
São avanços extraordinários, capazes de ampliar possibilidades de conhecimento, produtividade e desenvolvimento humano. Entretanto, a velocidade com que essas tecnologias se expandem, muitas vezes sem que tenhamos tempo para compreender suas consequências, desperta inquietações legítimas. Profissões serão transformadas, competências perderão relevância e novas formas de dependência tecnológica poderão comprometer nossa autonomia.
Paradoxalmente, quanto mais ferramentas desenvolvemos para facilitar a vida, mais difícil parece encontrar tempo para simplesmente vivê-la.
E, como se tudo isso não bastasse, a natureza também nos apresenta sinais preocupantes. As mudanças climáticas já não são apenas projeções de um futuro distante. Temperaturas extremas, secas prolongadas, chuvas devastadoras e outros fenômenos ambientais passaram a fazer parte da nossa realidade. A intensificação do El Niño, com perspectivas de alcançar proporções excepcionais, amplia a preocupação com seus possíveis impactos sobre populações, economias e ecossistemas.
Temos, portanto, três grandes fontes de inquietação: a instabilidade das relações humanas, a velocidade das transformações tecnológicas e a crescente vulnerabilidade do ambiente natural.
E existe um elemento que potencializa todas elas: a exposição contínua à informação.
Somos bombardeados diariamente por notícias, opiniões, previsões, alertas e interpretações, muitas vezes contraditórias. O que antes chegava em doses relativamente administráveis agora nos acompanha durante praticamente todas as horas do dia.
A sensação é de que precisamos estar permanentemente informados, atentos e preparados para reagir.
Mas será que estamos?
Quando o mundo exterior ocupa nosso mundo interior
O problema não está apenas na gravidade dos acontecimentos. Está também na maneira como nos relacionamos com eles.
Diante de ameaças reais ou imaginadas, nosso organismo mobiliza mecanismos naturais de proteção. A atenção se estreita, o corpo se prepara para reagir e a mente passa a buscar sinais de perigo.
Esse funcionamento é indispensável à sobrevivência. Entretanto, quando o estado de alerta se torna permanente, começamos a pagar um preço elevado.
A preocupação excessiva com aquilo que poderá acontecer nos afasta daquilo que está efetivamente acontecendo. Passamos a viver antecipadamente problemas que talvez nunca se concretizem, enquanto deixamos de perceber possibilidades, relações e experiências disponíveis no momento presente.
A mente fica agitada. O corpo permanece tensionado. O coração perde a tranquilidade.
E, curiosamente, quanto mais tentamos controlar aquilo que está fora do nosso alcance, menos disponíveis ficamos para cuidar daquilo sobre o qual realmente podemos agir.
É nesse ponto que o equilíbrio emocional deixa de ser apenas uma condição desejável e passa a representar uma competência essencial para preservar nossa saúde mental, nossa capacidade de discernimento e nossa liberdade de escolha.
Não se trata de permanecer indiferente diante das ameaças. Trata-se de não permitir que elas assumam o comando da nossa vida.
Afinal, uma mente permanentemente sequestrada pelo medo dificilmente encontra espaço para a criatividade, a empatia e a construção de alternativas.
Aceitar a realidade não significa resignar-se a ela
Uma das maiores dificuldades humanas está em aceitar que a realidade nem sempre corresponde às nossas expectativas.
Queremos estabilidade num mundo em transformação. Buscamos segurança num ambiente marcado pela incerteza. Desejamos respostas definitivas para questões que ainda estão sendo formuladas.
Quando essas expectativas são contrariadas, frequentemente reagimos com resistência, indignação ou ansiedade.
Entretanto, existe uma diferença fundamental entre reconhecer uma realidade e conformar-se passivamente com ela.
Aceitar significa perceber o que está acontecendo sem acrescentar ao acontecimento uma camada desnecessária de sofrimento produzida pela nossa resistência.
É reconhecer que determinadas circunstâncias existem, independentemente da nossa concordância com elas.
A partir desse reconhecimento, recuperamos a possibilidade de escolher como responder.
Podemos nos indignar diante da injustiça sem permitir que a indignação se transforme em ódio permanente. Podemos acompanhar as transformações tecnológicas sem nos entregar ao medo da obsolescência. Podemos reconhecer a gravidade das ameaças ambientais sem abandonar nossa capacidade de contribuir para soluções.
A serenidade não elimina a responsabilidade. Ao contrário, pode torná-la mais lúcida e efetiva.
Mas tudo isso é muito mais fácil falar do que fazer, não é?
Sem dúvida.
Por isso, proponho algumas práticas simples que podem nos ajudar a cultivar esse equilíbrio no cotidiano.
Algumas possibilidades para atravessar tempos turbulentos
1. Reconheça os limites do seu controle.
Faça uma distinção consciente entre aquilo que depende de você, aquilo sobre o qual pode exercer alguma influência e aquilo que está completamente fora do seu alcance.
Direcione sua energia para os dois primeiros campos. Preocupar-se indefinidamente com o terceiro dificilmente produzirá alguma transformação positiva.
2. Aprenda a interromper o estado de alerta permanente.
Estar informado é importante. Estar continuamente exposto a notícias alarmantes não é necessariamente saudável.
Estabeleça momentos específicos para acompanhar os acontecimentos e permita-se períodos de desconexão. O mundo continuará existindo enquanto você descansa sua atenção.
3. Cultive diariamente momentos de presença.
Reserve alguns minutos para simplesmente perceber sua respiração, as sensações do corpo e os pensamentos que surgem.
Não é necessário esvaziar a mente ou impedir que as preocupações apareçam. A prática consiste em reconhecê-las sem se deixar arrastar automaticamente por elas.
Com o tempo, podemos desenvolver maior capacidade de perceber nossos estados emocionais antes que eles determinem nossas reações.
4. Exercite a autocompaixão.
Em momentos difíceis, observe como você conversa consigo mesmo.
Frequentemente acrescentamos às dificuldades reais uma cobrança excessiva por não conseguirmos lidar com elas da maneira que gostaríamos.
Reconhecer nossas limitações com gentileza não significa acomodação. Significa criar condições internas mais favoráveis para aprender, adaptar-se e seguir adiante.
5. Preserve suas conexões humanas.
Num mundo progressivamente mediado por telas e algoritmos, a qualidade das relações humanas ganha ainda mais importância.
Converse, escute, compartilhe inquietações e esteja verdadeiramente presente nos encontros.
Nem toda conversa precisa produzir uma solução. Às vezes, a simples experiência de ser ouvido já modifica nossa maneira de perceber um problema.
6. Transforme preocupação em ação consciente.
Depois de reconhecer o que está acontecendo e acolher suas próprias reações, pergunte-se: o que posso fazer, concretamente, diante desta situação?
Pode ser uma mudança de hábito, uma decisão profissional, uma atitude solidária, um aprendizado ou uma contribuição para a comunidade.
Pequenas ações conscientes costumam ser mais transformadoras do que grandes preocupações improdutivas.
Habitar o presente em um mundo que não para
Talvez um dos maiores desafios do nosso tempo seja compreender que não precisamos esperar que o mundo se torne tranquilo para encontrar alguma tranquilidade dentro de nós.
A instabilidade política não desaparecerá por completo. As transformações tecnológicas continuarão acontecendo. A natureza seguirá exigindo mudanças profundas na maneira como vivemos.
Não temos o poder de interromper esses movimentos.
Mas podemos desenvolver uma maneira diferente de nos relacionar com eles.
É nesse sentido que a prática de Mindfulness, ou Atenção Plena, oferece uma possibilidade valiosa: cultivar a capacidade de perceber o que acontece dentro e fora de nós, reconhecer nossas reações e escolher respostas mais conscientes.
É também o princípio que inspira o Habitar o Presente: aprender a estar verdadeiramente presente na própria vida, sem precisar fugir da realidade, negar as dificuldades ou permanecer refém delas.
Não se trata de buscar um estado permanente de paz ou uma existência livre de conflitos. Trata-se de desenvolver a capacidade de retornar ao equilíbrio, tantas vezes quantas forem necessárias.
Porque a vida não acontece quando todas as ameaças desaparecem, quando a tecnologia finalmente se estabiliza ou quando as notícias se tornam tranquilizadoras.
A vida está acontecendo agora.



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